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OBESIDADE NA INFÂNCIA E INTERAÇÕES FAMILIARES: UMA PERSPECTIVA
SISTÊMICA
Trabalho como psicóloga, no Setor de Nutrologia Pediátrica do Hospital
das Clínicas da UFMG, há 14 anos, e diante da observação das dificuldades
dos diversos profissionais da área de saúde em lidar com a obesidade na
infância, proponho abordar esse fenômeno numa perspectiva sistêmica(1) em
que amplia-se o foco da criança como única responsável por sua obesidade
para o contexto de relações familiares e sociais.
Nessas relações familiares ocorrem conflitos os quais se expressam em um
excesso de proteção e cuidados maternos enfatizados na alimentação dos
filhos (as). O pai, por sua vez, apresenta um certo distanciamento na
relação com as crianças , e mostra-se fragilizado como figura de autoridade.
A tentativa de aproximação paterna se revela em uma permissividade
alimentar.
Essas interações familiares conflituosas geram principalmente, nos filhos
(as), ansiedade que se expressa em um comer excessivo. Esse comportamento
alimentar relaciona-se a uma postura passiva das crianças para tomarem
iniciativas em atividades cotidianas (tomar banho, trocar de roupa, fazer as
refeições, estudar). Essa passividade prejudica o processo de autonomia(2)
das crianças para lidarem com situações da vida, assim como, o
desenvolvimento de auto-confiança para estabelecerem relações interpessoais
no contexto social. Ressalto que relacionado a essas questões familiares, o
contexto de violência urbana, também, restringe o espaço de convivência
social das crianças.
Essa dinâmica de relações familiares e sociais culmina em experiências de
sofrimento e adoecimento que envolve todo o grupo familiar. Esse sofrimento
se mostra visível no excesso de peso no corpo da criança o qual armazena uma
sobrecarga psicológica invisível. Esses pesos biológico e psicológico(3)
estabelecem conexões, já que a expressão do sofrimento psíquico da criança
se revela na sua conduta do comer em excesso. A criança tenta comunicar,
simbolicamente, ingerir conflitos e sofrimentos desse contexto sociofamiliar,
dada a dificuldade de compreendê-los.
Na perspectiva sistêmica, os relatos dos pais, mães e crianças sobre as
relações afetivas estabelecidas em torno da alimentação, seus aprendizados
dos valores, crenças, gostos e saberes alimentares, assim como a retratação
dos familiares obesos possibilitam reportar à reedição do sentido simbólico
de ser gordo em suas famílias. Essa recorrência entre as gerações aponta
para a memória familiar(4) – criança ser gorda significa “puxar” o avô ou
avó e o pai ou mãe - sustentam a identidade familiar e proporcionam aos
membros um sentimento de pertencimento familiar.
No entanto, o enrijecimento nessa identificação - ser gordo torna-se um
modelo homogeneizador, dificultando o processo de diferenciação(5) , ou
seja, de possibilidades de identificações com outras pessoas significativas
da família. Agregado a isso, essas crianças se deparam com um padrão
normativo corporal-magro característico da sociedade pós-moderna (6) .
Diante disso, evidenciam-se vivências de conflitos em relação à identidade –
ser gordo e a possibilidade de emagrecer, ou seja, diferenciar-se –
tornar-se magro. Isso traz graves implicações no desenvolvimento
psicoafetivo das crianças, já que equivocadamente familiares e, até mesmo,
profissionais depositam, exclusivamente a elas, a responsabilidade do
cumprimento da prescrição dietética. Desta forma, o descumprimento da dieta,
gera vivências de fracasso e desesperança relacionadas à depressão ou
agressividade direcionada aos familiares diante da atitude de cobrança
excessiva quanto ao seu emagrecimento.
Acolher e respeitar as famílias em suas histórias constituem uma das
estratégias facilitadoras da relação entre a família e o profissional, na
tentativa de que a intervenção não se torne uma ameaça à identidade do grupo
familiar. Pelo contrário, que possibilite envolvimento e participação das
famílias no processo de mudanças. A intervenção não se reduz a cuidar da
mudança de hábitos alimentares, já que inclui a vida das pessoas, seus
vínculos afetivos familiares e sociais, valores, dores e conflitos.
Representa um processo dinâmico e reconstrutivo de um novo estilo de vida
familiar.
O tratamento da obesidade na infância deve ser co-construído entre os
profissionais e as famílias(7) . A responsabilidade da intervenção não pode
ser atribuída exclusivamente ao médico pediatra, ou ao nutricionista, ou ao
psicólogo, ou ao educador físico. Torna-se necessário criar possibilidades
de diálogos e atuações entre os profissionais, com o intuito de gerar
complementaridade entre os saberes (8) .
Para tal, torna-se fundamental a atuação profissional interdisciplinar
apoiada na perspectiva sistêmica em que as interações que se estabelecem
entre pais, mães, filhos e filhas necessitam ser incluídas e articuladas às
questões nutricionais que envolvem o processo de mudanças de estilo de vida
das famílias.
Cuidar das crianças obesas implica considerá-las em seus contextos
familiares e sociais. No sentido de “(trans)ver”, ou seja, acolhê-las com um
olhar que vê além da sua gordura e peso. Respeitá-las na suas histórias
familiares, nos seus sofrimentos, nas suas alegrias, nos seus saberes e nas
suas curiosidades.Valéria Tassara
Mestre em Ciências da Saúde da Criança e do Adolescente pela Faculdade
de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Equipe de
Psicologia Hospital Infantil São Camilo-MG. Associada da ABESO- Associação
Brasileira para o Estudo da Obesidade e Sindrome Metabólica
REFERÊNCIAS
1. Aun J, Coelho S, Vasconcellos MJ. Atendimento sistêmico de famílias e
redes sociais: Fundamentos Teóricos e Epistemológicos . Belo Horizonte:
Ophicina de Arte & Prosa; 2005.v2.232p
2. Tassara, V; Leão E, Filho PF; Lamounier, J A; Norton, R C; Starling, ALP;Kanufre,V.
Abordagem nutricional e psicológica no tratamento da obesidade na infância.
In: Weffort, V R S.; Lamounier, J A. (coords). Nutrição em Pediatria: da
neonatologia à adolescência. Barueri, SP: Manole, 2009. p. 373-376.
3. Tassara V. Obesidade na infância no contexto sociofamiliar:
possibilidades de (des)construção e (res)significação de identidades
(pré-)escritas. 137f. Dissertação ( Mestrado em Ciências da Saúde da Criança
e do Adolescente). Faculdade de Medicina: Universidade Federal de Minas
Gerais; 2006.
4. Mcgoldrick M, Gerson R. Genetogramas e o ciclo de vida familiar. In:
Carter B, Mcgoldricck M, editors. As mudanças no ciclo de vida familiar. 2nd
ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995. p. 144-66.
5. Silva T. A produção social da identidade e da diferença. In: Silva T.
Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 3th ed.
Petrópolis: Vozes; 2004. p. 73-102.
6. Stenzel LM. Obesidade: o peso da exclusão. 2nd ed. Porto Alegre: EDIPUCRS;
2003.
7. Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Obesidade na infância e adolescência - Manual de Orientação. São Paulo:
Sociedade Brasileira de Pediatria; 2008.
8. Ude Marques W., Scalco G. Transdiciplinaridade e complexidade. Rev.
Presença Pedagógica, v. 9, n. 52, p. 70-73 p., jul./ago. 2003.
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